
Preocupo-me com os meus dois mileuristas que me estão mais próximos. Tenho mais mileuristas na família, mas estes dois são aqueles que ocupam um lugar muito especial na minha vida. Nem eu, nem eles prevíamos que o presente fosse assim. Tivemos expectativas e até não eram muito grandes. Falávamos sobre o futuro com alguma emoção, com uma agradável sensação de que estávamos a pensar bem, que estávamos a ser socialmente correctos, estávamos a contribuir para o bem da sociedade. Prevíamos que esta geração poderia encontrar um trabalho compatível com as suas habilitações e ganhar o suficiente para a sua sobrevivência. Que poderiam ser independentes. Construímos o nosso saber sobre a vida e sobre o viver tendo em atenção essa premissa. Seguiram os modelos de vida da geração anterior. Era a sua referência. Não tinham outra. Para alguma coisa a modelagem deve servir. Pensávamos que a vida seria, se não melhor, pelo menos idêntica. Nunca a palavra independência financeira teve tanto valor para eles e ao mesmo tempo parecia-lhes tão longínqua. Construímos o nosso discurso baseado em ilusões, em esperanças, em paradigmas. Hoje são mileuristas. O que pensam do presente e como perspectivam o futuro? Que oportunidades lhes são facultadas? Para onde querem que eles caminhem? Parece-me que não lhes estão a indicar caminhos, nem alternativas. Essas não se inventam e eles não podem lutar por aquilo que não existe. Estarão sempre em desigualdade, sem oportunidades de caminhar. Estou a ler "Mileuristas" de Espido Freire. Um pouco atrasada, eu sei. Em Espanha, o livro já circula há pelo menos dois anos e foi um grande sucesso editorial, com uma repercussão enorme dentro da sociedade. O assunto é lugar-comum. Cá o livro saiu em Janeiro.
Para Espido Freire, os mileuristas são uma geração entre os vinte e tal anos e os trinta e muitos. São pessoas que nasceram durante a democracia espanhola e que sempre tiveram oportunidade de escolha. É a geração das actividades extra escolares, os que tiveram oportunidade de ir ao karate, ao inglês e à catequese, mas também à informática. Uma geração que viajou, que fez o inter-rail e que muitas vezes estudou com uma bolsa num país estrangeiro.
A própria Espido Freire refere que, quando em 1992 se matriculou em Direito na Universidade Privada de Deusto em Bilbau, só no primeiro ano do seu curso havia 1200 estudantes. Com tantos licenciados não havia empregos compatíveis para as suas aptidões. Em parte, isso explica os contratos precários um pouco por toda a Europa e a versão portuguesa de recibos verdes, que no seu entender é muito mais vergonhosa e intolerante. Sem emprego, muitos jovens resolveram apostar em mais formação, em mestrados e doutoramentos, alguns através de bolsas pagas pelo governo e ajudas da comunidade europeia. Contudo, dez anos mais tarde ainda continuavam a ser bolseiros. Em geral, ninguém percebeu que a sociedade tinha mudado e que tinha deixado para trás toda uma geração sem saber muito bem o que fazer e como fazer.
1 comentário:
um breve comentário transformou-se num post, ou não fosse o assunto algo pessoal. http://gliceriagil.blogspot.com/2008/03/gerao-mileurista.html
talvez todos os mileuristas devessem fazer uma manifestação como a que hoje une tantos professores em Lisboa. Só que acho que não teríamos um alvo tão concreto como uma ministra. acho que nem mesmo culpar o governo seria suficiente.
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